Da Bicharada ao Pé na Cova: filho de Mestre Jaime, Allan Kardec é símbolo do Carnaval de Salgueiro

  • 12/02/2026
(Foto: Reprodução)
Carnaval de Salgueiro homenageia os 80 anos do Bloco da Bicharada de Mestre Jaime O Carnaval de Salgueiro, no Sertão de Pernambuco, sempre nasceu do chão. Da rua, do passo apressado atrás da orquestra, do riso solto de quem transforma dificuldade em alegria. É nesse território afetivo que a história de Allan Kardec Conserva se mistura com a própria história da festa. Aos 67 anos, ele será o homenageado vivo do Carnaval 2026, reconhecimento a quem ajudou a manter pulsando uma tradição que atravessa gerações. Um dos nove filhos de Mestre Jaime, criador do tradicional bloco da Bicharada , que completa 80 anos em 2026, e uma das figuras mais importantes da cultura popular de Salgueiro, Allan Kardec cresceu cercado por bonecos gigantes, máscaras e caretas. Leia também: Exposição na Casa da Cultura resgata 50 anos da história do carnaval de Salgueiro Lançamento do livro 'O Mestrinho e a Bicharada na Folia' celebra a arte de Mestre Jaime Por mais de 75 anos, Mestre Jaime levou alegria às ruas do município com personagens que representavam animais e pessoas anônimas, transformando o Carnaval em um espetáculo genuinamente popular. Artista plástico, seresteiro, músico e alfaiate, ele fez da própria casa um espaço permanente de criação, onde a arte e a folia nasciam de forma simples e coletiva. Além da homenagem ao filho, Allan Kardec, o carnaval de Salgueiro em 2026 traz como tema os “80 anos da Bicharada do Mestre Jaime”, uma das mais tradicionais manifestações culturais do município, eternizada na folia do bloco de rua. A infância entre caretas, tinta e afeto Allan Kardec fez história e Salgueiro através da influência no carnaval do município Arquivo pessoal As primeiras lembranças de Allan com o Carnaval vêm da infância, quando ainda menino ajudava o pai na confecção das máscaras. “Minha lembrança é dos 10 para os 12 anos. Ele já fazia os caretas e eu ficava mexendo nas coisas, mexendo na cola, colando papel nas máscaras. Às vezes pintava também”, recorda. Era um aprendizado livre, sem regras rígidas. Mesmo quando o resultado parecia estranho aos olhos do menino, vinha o incentivo. “Teve um careta que eu pintei de vermelho, com a boca preta. Eu disse: ‘Papai, esse está horrível’. Ele respondeu: ‘Não, está lindo, está diferente. O povo gosta é das coisa feia’”, conta, aos risos. Dentro de casa, o Carnaval era rotina. Mestre Jaime produzia quase tudo ali mesmo, em um quartinho improvisado, enquanto os filhos observavam e participavam. Mais do que um mestre da folia, ele era um pai afetuoso. “Para mim, ele foi praticamente um irmão. Nunca bateu em nenhum filho. Ele dava conselho, mostrava como era a vida sem pancada. Era muito alegre, para ele estava tudo bom”, lembra Allan. A paixão pelo Carnaval não foi imposta. Foi construída aos poucos, no convívio diário com o trabalho artesanal, com os carros velhos que viravam invenção, com a certeza de que a brincadeira era também um modo de viver. “A gente foi criando aquilo dentro de casa. Foi vendo ele trabalhar, gostar daquilo, amar o Carnaval”, resume. Allan Kardec fala sobre o crescimento ao lado do pai, Mestre Jaime, símbolo do carnaval do Sertão de PE Arquivo pessoal Em busca do próprio legado Mesmo carregando um sobrenome profundamente ligado à história do Carnaval de Salgueiro, Allan construiu seu próprio caminho. Após passar cerca de três anos no Recife, onde estudou, voltou à cidade e mergulhou de vez na festa. Ainda adolescente, ajudou a fundar o Massa Real, bloco ligado ao Carnaval de clube, que exigia organização, arrecadação e responsabilidade coletiva. “A gente fazia cota para comprar instrumento, tinha disputa de fantasia, arrecadava dinheiro para comprar roupa. Não era só brincar, tinha trabalho”, explica. O envolvimento cresceu, assim como o gosto pela organização da folia. Após três anos no Recife, Allan Kardec retorna a Salgueiro e ajuda e fundar o Massa Real, bloco ligado ao Carnaval de clube Arquivo pessoal Anos depois, mais maduro, veio a criação do Pé na Cova, bloco fundado há cerca de cinco anos e que hoje se consolida como símbolo de resistência do Carnaval de rua em Salgueiro. “O Pé na Cova ainda mantém a tradição. A gente sai com banda de música, faz camisa para arrecadar dinheiro, começa pequeno e vai crescendo”, afirma. O crescimento é visível: de cerca de 20 ou 30 pessoas no início, o bloco chegou a vender 200 camisas neste ano. O estilo de Allan é diferente do irmão, Jaime Concerva (Jaiminho), que atua mais nos bastidores da construção dos bonecos. Ele prefere o contato direto com o povo. “Meu negócio é estar na folia. Quando o bloco sai, eu saio atrás, correndo, brincando”, diz. Essa postura fez com que muitos reconhecessem nele traços marcantes de Mestre Jaime. “Muita gente dizia que a bicharada era a cara de papai e a minha cara também”, conta. Filho de Mestre Jaime segue legado do pai e mantém vivo o desfile da Bicharada no Carnaval de Salgueiro Um Carnaval que insiste em resistir Filho de Mestre Jaime, Allan Kardec é símbolo do Carnaval de Salgueiro CCOM A escolha de Allan como homenageado vivo do Carnaval 2026 veio como surpresa. “Quando anunciaram, eu pensei que era brincadeira. Quando subi no palco, só consegui dizer ‘muito obrigado’. A mente travou”, lembra. O carinho do público revelou a dimensão do reconhecimento. “Todo mundo bateu palma, levantou das mesas, veio me abraçar. Eu não esperava tanto assim.” Apesar da homenagem, Allan faz questão de colocar o pai em um patamar único. “Eu acho que não chego nem perto do que ele foi. Mestre Jaime foi um ícone. Ele eternizou o Carnaval de Salgueiro”, afirma. Ainda assim, acredita que carrega parte essencial desse legado: a alegria genuína e o amor pelo Carnaval popular. Ao olhar para o presente, ele reconhece as transformações da festa. Sente falta do frevo dominando as ruas, das bandinhas acessíveis a todos. “Antigamente o Carnaval era no chão. Hoje é muito palco. Antes você não precisava de nada para acompanhar uma orquestra”. Para ele, a mudança reflete novos tempos e novas gerações, e é preciso aceitar, mas sem esquecer a raiz. Essa continuidade também se expressa na família. Allan é pai de três filhos e avô de cinco netos, todos envolvidos com a folia. “Eles adoram o bisavô. Participam, ajudam, perguntam quando vai ter bloco. Vão no mesmo caminho”, conta animado. Em 2026, ao homenagear Allan Kardec, Salgueiro celebra mais do que um nome. Celebra uma história feita de rua, afeto e resistência cultural. Um legado que não está apenas na memória, mas vivo, pulsando, seguindo atrás do bloco, exatamente como sempre foi o Carnaval da cidade. Vídeos: mais assistidos do Sertão de PE

FONTE: https://g1.globo.com/pe/petrolina-regiao/noticia/2026/02/12/da-bicharada-ao-pe-na-cova-filho-de-mestre-jaime-allan-kardec-e-simbolo-do-carnaval-de-salgueiro.ghtml


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